• Carlos Guglielmeli

Na ONU, Bolsonaro faz um discurso voltado para conflitos, contrariando o objetivo da Assembleia


Ao sair do hospital, após sua quarta cirurgia em consequência do atentado que sofreu quando ainda era candidato, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro demonstrou um forte desejo de se recuperar a tempo de ir à Assembleia Geral das Nações Unidas para desfazer o que chamou "impressões erradas sobre as políticas de preservação ambiental do Brasil". Esperava-se um discurso ameno e conciliador, mas não foi o que aconteceu.

Bolsonaro se reteve à atritos sobre ideologias, com ataques à imprensa, à governos estrangeiros, à personalidades nacionais, argumentações simplistas contra dados e até cobranças à própria Organização das Nações Unidas.

Sobre o que chamou de “ataques sensacionalistas”, por parte da mídia, acompanhada de lideranças internacionais sobre a política ambiental de seu governo, o presidente se concentrou em criticar de maneira velada o presidente francês, Emmanoel Macron, a chanceler alemã, Ângela Merkel e provocou a própria ONU .

"A Organização das Nações Unidas teve papel fundamental na superação do colonialismo e não pode aceitar que essa mentalidade regresse a estas salas e corredores, sob qualquer pretexto. Não podemos esquecer que o mundo necessita ser alimentado. A França e a Alemanha, por exemplo, usam mais de 50% de seus territórios para a agricultura, já o Brasil usa apenas 8% de terras para a produção de alimentos. 61% do nosso território é preservado!", falou Bolsonaro.

Outra vez se dirigindo a eles, mas sem nominar novamente os líderes francês e alemã, porém em referência clara aos seus países, o presidente brasileiro disse:

"A Organização das Nações Unidas teve papel fundamental na superação do colonialismo e não pode aceitar que essa mentalidade regresse a estas salas e corredores, sob qualquer pretexto. Não podemos esquecer que o mundo necessita ser alimentado. A França e a Alemanha, por exemplo, usam mais de 50% de seus territórios para a agricultura, já o Brasil usa apenas 8% de terras para a produção de alimentos. 61% do nosso território é preservado”.

Não satisfeito, Bolsonaro completou, "Valendo-se dessas falácias, um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista. Questionaram aquilo que nos é mais sagrado: a nossa soberania! Um deles por ocasião do encontro do G7 ousou sugerir aplicar sanções ao Brasil, sem sequer nos ouvir. Agradeço àqueles que não aceitaram levar adiante essa absurda proposta".

Sobre a população indígena, Bolsonaro disse que não vai aumentar para 20% suas áreas já demarcadas sob o argumento de que os índios não podem ser “latifundiários pobres encima de terras ricas”.

O brasileiro também leu um documento supostamente assinado por lideranças indígenas em apoio às suas políticas ambientais e de demarcação de terras, o que foi duramente desmentido por líderes de várias tribos que estão presentes na assembleia.

No momento em que “lavou roupa suja caseira”, Jair Bolsonaro desenvolveu um raciocínio que atacou não somente seus antecessores, mas também a ONU por tabela outra vez, "Há pouco, presidentes socialistas que me antecederam desviaram centenas de bilhões de dólares comprando parte da mídia e do parlamento, tudo por um projeto de poder absoluto. Esses mesmos governantes vinham aqui todos os anos e faziam descompromissados discursos com temas que nunca atenderam aos reais interesses do Brasil nem contribuíram para a estabilidade mundial. Mesmo assim, eram aplaudidos."

Sem conseguir apresentar uma verbalização para o adiante, quando falou dos governos anteriores ao seu, Bolsonaro se empolgou no tema ideologia e globalismo:

"Meu país esteve muito próximo do socialismo, o que nos colocou numa situação de corrupção generalizada, grave recessão econômica, altas taxas de criminalidade e de ataques ininterruptos aos valores familiares e religiosos que formam nossas tradições" disse ele que depois ironizou o país vizinho dominado pela ditadura Chavista: “A Venezuela, outrora um país pujante e democrático, hoje experimenta a crueldade do socialismo. O socialismo está dando certo na Venezuela“.

A repercussão entre diplomatas e líderes mundiais foi, em sua maioria, de frustração, pois era esperado um discurso de estado, voltado para o mundo e conciliador, em conformidade com o objetivo das Assembleias, mas nunca uma fala com tribulações conflituosas particulares do Brasil com os seus e com terceiros.


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